Bus Ride Notes

Date archives setembro 2019

Entrevista

Olha como elas são más! Conheçam a GULABI

“GULABI é uma banda Punk feminista e antifascista de São Paulo que se inspira na resistência das mulheres da Gulabi Gang”

No dia 17/08/2019 a banda se apresentou no Badaroska Fest e nos cedeu uma entrevista maravilhosa! Conheçam essas mulheres más! As minas falam sobre Punk, feminismo e como a cena tem mudado.

POGS – GUITARRA/BACKING VOCAL
CIBS – “TOCO O TERROR” | VOCALISTA #1
CAROL – BAIXO
MAYA – VOCALISTA #2
MAY – BATERIA

Da esquerda para direita: As fãs Isabela e Leticia. E as integrantes: May, Maya, Cibs, Carol e Pogs

BUS RIDE NOTES: Como a Gulabi surgiu? 

Carol – Eu já era amiga da Maya e da Cibs, daí um dia eu comentei que estava com vontade de tocar, só que eu estava numa fase insegura. Só queria voltar a tocar quando me sentisse bem mesmo, mas como eu tava com muita vontade a Maya e a Cibs falaram: “Vamos montar uma banda! Vamos, vamos!” Insistiram um pouco pra eu voltar a tocar e a gente decidiu montar uma banda. A Ideia de formar a Gulabi surgiu daí. 

Pogs: Acho que é relevante falar que eu caí de paraquedas no rolê. Eu não sou de São Paulo e depois de bastante tempo eu resolvi colar num show só de minas, o Apoia Mútua. Eu conheci a outra banda da Maya [Lili Carabina]… E a Carol, nos roles da vida a gente acabou se encontrando. 

Cibs: A gente adotou a Pogs para o nosso rolê.

Pogs: Elas me adotaram! (risos) 

Maya: E a May também… A gente conheceu a May tentando formar uma outra banda, não era? De Ska…

May: Foi antes disso ainda, eu vi a Maya e a Cibs num show do Teu Pai Já Sabe? e depois surgiu o convite para eu possivelmente tocar na Gulabi, mas elas ainda estavam decidindo com a antiga baterista se ela iria ficar ou não. E aí acabou que eu fiquei e tamo aí. E viramos amigas. (risos)

BRN – O que chamou vocês para a zona de confronto? 

Maya: O que move nessa parte do protesto, todas aqui, para além do som que a gente curte é o machismo, o sexismo, a lesbofobia, o racismo e o elitismo. Porque cada uma de nós tem um histórico de opressão dessas que eu citei, isso é o que nos faz utilizar o Punk.

May: A gente tem na banda mulheres periféricas. A Maya que é preta, tem eu que sou não-branca e periférica e tem a Carol que também é periférica. Enfim, cada uma tem uma história fodida e isso dá muita força para a gente continuar.

Maya: Então, eu acho que isso na atual sociedade e até dentro do Punk é o que move a gente para esse confronto, para tentar mudar algumas coisas, como esses tipos de opressão.

BRN – Quais maiores inspirações da Gulabi dentro e fora da cena atual? 

Maya: Eu tenho muita influência de bandas de Punk e Hardcore gringas. Eu ouvia muito Bad Religion, No Fun At All… Do Punk eu ouvia Addcits, muito Punk 77, Social Distortion e colava nesses shows de banda de fora que não era tão caro antigamente, né? Era acessível. E da cena brasileira eu colava muito em roles… Não tinha muita banda de mina para a gente prestigiar, das poucas que tinham que eu lembro de prestigiar era o Útero Punk.

Pogs: Acho que Bulimia….

Maya: Bulimia! É uma influência, mas eu colava basicamente em sons brasileiros de bandas Punk e Hardcore que eu não colo mais hoje porque tem histórico de integrantes com abuso, com declarações homofóbicas, declarações racistas, agressores… Então praticamente todas as bandas que eu curtia de Punk “histórica” brasileira eu não colo mais por uma questão ideológica.

Pogs: Cara se não fosse Cólera na minha vida, se não fosse DZK, Psicose. Se não fossem um monte dessas outras bandas eu talvez não estaria aqui agora e tivesse ido para outras vertentes. Elas tiveram sua importância na minha opinião, embora, hoje em dia precisa ser mais do que era a uns 14 anos atrás. 

BRN: E é difícil se afastar de um som que ajudou a te formar por causa de posições de algum integrante da banda? 

Carol: Chega uma hora que você vai ouvir uma música de certa banda e você não consegue não associar, não pensar naquilo. Que seja um caso machismo, racismo… Para mim essa parte é um pouco mais fácil porque a maioria das bandas que eu escuto são de mulheres, então, eu não tenho tanto histórico de rompimento com bandas que fizeram parte da minha formação. 

Pogs:  Eu já tenho um pouco mais de dificuldade em separar por conta de memória afetiva com banda, sabe? Até brinco com as meninas quando elas falam assim “Ah então, sabe essa banda?” Eu já peço pra nem falar porque dá uma tristeza. (risos) 

May: É muita hipocrisia né? 

Pogs: Claro que é importante, mas o bom é que as letras continuam fazendo sentido. O que não faz sentido é essas pessoas estarem falando o que estão falando porque elas são hipócritas. Nós nunca conseguimos só falar “Sim” para um show, sabe? É sempre “Tá beleza, quais são as bandas? Beleza, qual tem alguma fita com essa banda? Aonde vai ser?”.

Cibs: [Difícil] pra caralho pra mim! Eu acho triste! Mas assim eu não tenho, sei lá eu acho que é um rompimento tão foda que é tipo impossível [não romper]…

Maya: Eu achava difícil antigamente porque justamente não existia essa cena de minas e tantas bandas de mulheres despontando. Então quando você rompia, saía do rolê. E acontecia isso com um monte de mina e que justamente por isso que acabou dando mais força para essa cena. Porque a gente gosta de Punk, a gente gosta de Hardcore e ao mesmo tempo a gente é feminista e a gente não quer ficar num rolê bosta. Os caras passam pano para agressor e o caramba! Agora é mais tranquilo porque nós temos muitas opções e nós mesmas estamos nos organizando para produzir. 

Cibs: Antigamente as mulheres eram simplesmente segredadas por diversas razões, especialmente quando existia assédio, abuso, estupro e coisas desse tipo. Você curte o som e gosta da cena, mas não vai querer colar, e as vezes pagar, para entrar num lugar e ver o homem que abusou de você circulando livremente ali. Então acaba que as minas deixavam de colar e iam se afastando, o que corrobora para o que sempre acontece: Que é só macho tocando, só macho vendo, só macho convidando a bandinha do amigo. Como a Maya falou, agora a gente conseguiu se organizar e tem todo final de semana banda com mina. Aliás, evento de banda com mina. Hoje inclusive eu tava vendo que deve ter tipo uns 3 ou 4 rolando esse final de semana, sabe?  Antigamente tinha Lady Fest e o Distúrbio Feminino… Uma vez por ano você ia sair? Não né!  

Pogs: O que não significa que tá muito mais fácil, tem mais opção porque são as minas que organizam… Então fica meio que a gente pela gente. E não é só aquele discurso de “tem que estar todo mundo junto”. Seria interessante que nós não precisássemos parar e ficar pesquisando toda vez que alguém chama a gente para tocar ou que a gente procura uns shows para fazer, para ver a lista enorme de bandas com macho abusivo, com macho-merda. 

BRN: Quais seus objetivos como artistas?  

May: Atualmente é inspirar as outras minas, é tipo: Mano, você pode tocar também! Você pode ser alguém também! Você pode ser da hora pra caralho! Foda-se tudo que acontece com você ou que aconteceu durante a sua vida, toda falta de oportunidade que você teve para aprender um instrumento, só vai!

Carol: Incentivar as minas. Mesmo que nunca tenham pegado num instrumento, vai lá, pega o instrumento, dá sua ideia porque muitas bandas começaram assim. Os homens são incentivados desde cedo a tocar e mina não.

Maya: E desde os anos 70, tá ligado?

Pogs: E acabamos fazendo isso com nós mesmas. Ninguém aqui tem uma vasta experiência. Eu e a May somos as que tocam há mais tempo. Eu comecei com uns 10 anos e aprendi sozinha porque por sorte eu tenho uma mãe que me incentivou quando eu quis aprender. Peguei o violão e não tive os mesmos incentivos que os outros caras tiveram. Acredito que nenhuma das meninas teve. Mas o próprio som fala por si só, que é esse punkzão carniça que nós fazemos.

Cibs:  É, e o Punk é assim: Vai e faz! Você não precisa ser virtuoso, o importante é a mensagem que você vai passar. Paralelo a isso o que a gente tem muito forte é sermos poucas e falar na cara, direto e reto. Especialmente quando o homem está ali, a gente vai falar mesmo. E se cobrar, como já aconteceu, a gente vai descer [do palco] e voar na cara, sabe?

Pogs: E a recompensa maior é que minas vieram falar com a gente enquanto banda e se identificam, tipo “Valeu por falarem!”.

Maya: A gente falou uma coisa que ela também gostaria de falar e isso é muito da hora. Queremos essas meninas com a gente, a gente quer essas minas organizadas, andando juntas.

BRN: Quais os maiores impactos que integrar a Gulabi causou na vida de  vocês? 

Cibs: Acaba virando uma família.  

May: De qualquer forma é uma [sempre] apoiando a outra. As vezes eu tenho crises de pânico no metrô daí mando uma mensagem no grupo, e mano, as mina vai lá e conversa comigo (risos). Enfim, é. Tem essa fita também.

Pogs; Não é só banda, é amizade, é família. 

Carol: Sim, eu recentemente perdi meu irmão e a banda foi uma parte muito importante para eu não enlouquecer porque não foi e não está sendo um momento fácil. Mas [a Gulabi] além de ser o meio por onde minha voz, a nossa voz, é ouvida também é aquilo que me ajuda a ficar em pé nos momentos difíceis, tanto a parte de fazer música quanto a amizade com as meninas.

Maya: E sobre a diversão, eu acho que também tem a fita da musicalidade, que é muito terapêutica. Você dar uns gritos, tocar uns instrumentos, isso faz muita parte também…

May: Ter uma distração no final de semana e saber que você não está sozinha. 

Maya: É uma válvula de escape na parte da diversão. A gente toca e depois ensaia, a gente vai dar um rolê, vai almoçar juntas. Isso também é prazeroso para além da política que a gente quer fazer para a cena.

BRN: Como vocês escolheram esse nome? 

Maya: Antigamente, quando comecei a ter contato com o feminismo eu li sobre essas minas e achei muito foda o que elas faziam e o nome, eu sempre falei “Mano, eu quero ter uma banda com esse nome, velho!”. Daí toda organização que rolava de ter banda eu falava “GULABI!” e ninguém queria. Acho que todo mundo já ouviu falar dessas minas. Elas são umas minas da Índia que fazem autodefesa com bambus. Tem mulheres tanto de 13 até de 60 anos. Elas fazem ações diretas aonde elas vão buscar os homens agressores e descer a bambuzada! A gente achou que tinha tudo a ver com o nome e com essa coisa do confronto que a gente quer trazer. Que, de fato, se precisar a gente vai descer do palco e vai descer o cacete num cara dependendo do que ele fizer, como já deu vontade. Se precisar, a gente vai partir para a violência, tá ligado? Não tem como a gente ser só discurso num momento que realmente precisamos nos defender, defender nossas amigas, nossos familiares e as mulheres na rua. Nós precisamos dessa força no dia a dia e que seja mais ativa por necessidade, inclusive, de sobrevivência. 

Pogs: Com certeza! E até em coisas mais simples, como por exemplo: alguns meses atrás passei por uma situação que eu vi uma mina sendo agredida no metrô, então eu fui e peitei [o homem]. Não que eu tenha ido bater nele, mas cheguei e falei “Moça, você precisa de ajuda?”. [O homem] me ameaçou e falou que iria me matar, me enterrar viva porque ele me identificou como sapatão. Não que seja difícil… (risos). Mas sofri bastante agressão verbal e se eu não tivesse ficado esperta teria sido agredida fisicamente, sabe? E com o cu na mão fui lá e cobrei e teria sido muito mais fácil se as pessoas que estavam no metrô, se os guardas do metrô tivessem ajudado. Então acho que essas pequenas coisas são importantes, não é que a gente vai sair catando bambu e sentando a bambuzada em todo mundo…

Maya: Mas se quiser, pode!

Pogs: Mas se quiser, pode.

BRN: Como vocês se descobriram guerreiras feministas? 

Pogs: Desde quando eu era pequena e os [meninos] falavam que eu não podia jogar bola [com eles] (risos). 

Maya: Eu sofri muito calada, durante minha adolescência, todos os tipos de opressão. Tanto racismo quanto o sexismo, assédio que eu sofri até na rua. Fui tomar força me organizando com mulheres feministas e conhecendo feminismo muito tarde, com uns 27 anos e eu tenho 33, então fazem tipo uns 7 anos. As minas, a May por exemplo, é de uma geração depois de mim, [elas] tem 20 e poucos anos. Essas minas já estão chegando com um background muito mais legal do que a gente, antes que o feminismo começou a despontar e nós começamos se organizar e ter visibilidade. A fita da internet também, quando eu nasci não tinha internet, quando eu tinha 10 anos não tinha internet, então era mais difícil para você se organizar.

Cibs: Mas de fato eu demorei. Fico bem em choque em como isso demorou para chegar até mim e como teria sido 100% diferente se tivesse sido antes.  Tipo, diversas situações e eu sempre fui meio reativa de partir para, não sei se para agressão. Eu sempre tentei ser explosiva, mas ter essa consciência toda política foi uma coisa que aconteceu muito tarde também, tipo uns 26, sei lá…
 
Carol: Comigo foi igual a Cibs. Tudo bem, eu tenho 26 agora, porém apesar de desde de criança descer o cacete nos moleques que vinham me encher o saco, só fui ter essa consciência política com uns 16/17 anos e é uma coisa que eu queria que tivesse acontecido antes. E olha que eu já escutava bandas feministas e as letras me tocavam. Já fiz parte de coletivo feminista e achava legal quando nas rodas de conversa colavam as minas de 14 anos. É muito bom ver isso chegando cada vez mais cedo na vida das meninas. 

May: Eu tenho 23 agora, conheci feminismo e a militância a partir dos 15. Mesmo eu tendo consciência política feminista desde os 15 anos, ainda assim eu tive relacionamento abusivo de anos. Por exemplo, eu fiz uma camiseta do it yourself feminista e o meu namorado na época fez de pano de chão e falou “Olha você não vai usar isso, vai ser meu pano de chão.” E literalmente foi o pano de chão do banheiro dele. Isso [consciência] nem sempre é o suficiente porque [machismo] é uma coisa tão enraizada que simplesmente acontece, eu tive um relacionamento abusivo durante 3 anos e fiquei fora da cena durante 3 anos justamente por conta desse relacionamento. 

BRN: O que podemos fazer pelo cenário político atual? 

Pogs: Organização. Eu acho que é a palavra. Parar de achar que as coisas vão só mudar. E não é dando “rage” na internet! Não é reclamando! São as pequenas atitudes que a gente tenta ter como banda, por exemplo. Acredito que é um passo. Conscientização e organização como militância até mesmo no dia a dia. Uma coisa que a esquerda tem que entender é que não adianta a gente ficar fazendo discurso para outras pessoas de esquerda, para outras pessoas militantes, temos que pular essas barreiras… Não necessariamente abrir o diálogo com a galera de direita, mas por exemplo quando vou comprar um lanche e converso com a pessoa que está atendendo, é isso que eu tento fazer no dia a dia, trocar uma idéia. Facho não tem muito como conversar, né? Mas os indecisos, as pessoas que acham que “Ah, realmente tá uma merda, mas não tenho o que fazer…”.

May: As pessoas mal informadas, que não tem acesso a informação, pessoal da periferia… 

Maya: Levando essa fita que a gente faz fica muito restrito a um grupo de pessoas, mas quando chega [nas periferias] é legal ver as pessoas que não tem contato com isso se identificarem ou acharem foda e ver que tem outras coisas acontecendo. E conhecer também, tá ligado? Porque esse mundo Punk é muito pequeno.

May: É uma bolha, mano! 

Maya: As pessoas que nem sabem o que é Punk, o que você faz. E para essas pessoas, que não tem acesso, ver isso é uma coisa muito nova, tá ligado? E pode despertar a vontade da pessoa fazer parte daquilo. 

May: Para finalizar, o que eu tenho de objetivo mesmo, como banda, é fazer chegar a mensagem de consciência principalmente para a população que não é informada. Lá na minha quebrada ninguém sabe o que é consciência política, ninguém sabe o que é guerra de classes.

Maya: Ninguém sabe o que é Punk, Skin, tá ligado? Essas tretas de militância e de contracultura os caras não sabem.

May: Eu acho que é muito mais além. O meu vizinho, ele não sabe que tá sendo explorado porque na vida inteira dele ele [não estudou] o suficiente para saber o que o governo faz e o que o sistema faz com ele. O dia em que essa mensagem chegar lá onde eu moro, na periferia, nos extremos, seria gratificante. Apesar de eu achar muito difícil sair da cena Punk, da cena Feminista que é uma porra de uma bolha. Eu chego no rolê, é mina privilegiada, é mina branca. Enquanto não chegar na minha favela não é o suficiente. Enquanto não discutirem gente discutindo sobre “Ah o governo fez isso, isso, isso e o caramba! Olha só como isso vai prejudicar a gente.”  Esse é o meu objetivo real. É isso.

Nossos agradecimentos as mulheres da Gulabi que toparam gravar essa entrevista e me ensinaram muito através dela, muito obrigada meninas! Fogo nos fascistas!

Ouça GULABI no Bandcamp ou nos sites de stream :


Resenha

Crazy Bastards – Selfie Entitled

Crazy Bastards é a banda mais pop punk de todas as bandas pop punk do mundo.
Quando me mostraram, pensei “curti o conceito”. A banda escolheu um gênero musical e foi detalhista. Não só no som, como artes, clipes e todo o resto.

Formada em Curitiba em 2017 por Tiago Oliveira (Vocal/Guitarra), Geanine Inglat (Vocal/Baixo) e Leandro Sousa (Bateria) em 2018 eles lançaram o primeiro disco, “Selfie Entitled”, que consiste em 18 minutos e 11 músicas de puro pop punk.

A capa é um desenho bunitinho de uma foto (selfie) da banda e pra cada música eles fizeram uma tirinha com uma interpretação gráfica da mesma, você pode ver todas no canal deles no Youtube.

Segundo o vocalista Tiago: “Esse álbum a gente focou no ‘mal uso de celular’ pelas pessoas, como estamos cada vez mais dependentes disso e os efeitos psicológicos, culturais e comportamentais que isso vem trazendo. Com uma linguagem por vezes irônica, mas a mensagem/reflexão espero que seja positiva no fim”.

A banda já tem quatro clipes, da música “Nostalgia” que mostra eles em um fliperama com direito a mergulho em piscina de bolinhas, de “Don’t Take Shit” que acompanha a letra da música mostrando um casal aconselhando o filho e termina com a banda destruindo o estúdio, da música de Natal “Bright Side” que tem a banda só tocando e se divertindo mesmo e o mais recente é da música “My Mistakes”, que é cheio de referências à clipes clássicos do gênero.

Pra mim esse pop punk clássico é pura nostalgia. Ou será que o gênero não mudou quase nada? É possível? Acho que não. De qualquer maneira, se hoje você não liga muito pro estilo, mas um dia já foi fã de Blink 182, Sum 41 e adjacentes, você vai gostar desse disco.

Assim como o disco, essa resenha foi curtinha e direta, agora vai lá ouvir ele e divirta-se.

“Selfie Entitled” está disponível nas redes de stream.


Resenha

Sapataria lança seu primeiro video clipe!

Clipe foi lançado celebrando um ano do EP da banda

Expulsão do banheiro feminino é tema da música M.S.B (Movimento das Sem Banheiro) 

Foto: Marina Ciccone

“Após um ano de estrada com o EP homônimo, a banda paulistana de punk/hardcore Sapataria lança nesta Sexta-Feira (13) seu primeiro videoclipe com a música M.S.B. (Movimento das Sem Banheiro). A letra relata em primeira pessoa a situação de quando as integrantes foram expulsas de um banheiro feminino por serem confundidas com homens. No clipe, elas ironizam esse fato e mandam uma mensagem ácida: “Se não nos querem no banheiro, então vamos levar ele conosco”.

Gravado no centro de São Paulo, as integrantes andam com uma privada de rodinhas pelo Minhocão, praça Roosevelt e outros pontos icônicos da cidade, sob os olhares curiosos e chocados dos transeuntes. A pé ou de skate, Zu Medeiros (vocal), Marina Garcia (guitarra), Dan Cox (baixo) e Isa Miranda (bateria), fazem questão de mostrar nas ruas que o banheiro é lugar para elas também, tocando em meio a paisagem urbana com a privada como amplificador ou banco da bateria. “Curiosamente, os olhares que as pessoas fizeram pra gente andando com a privada é o mesmo que recebemos toda vez que entramos em um banheiro feminino”, aponta Zu.

Diretora do vídeo e guitarrista da banda, Marina Garcia propôs um desafio: gravar o clipe com uma equipe 100% feminina. “M.S.B. foi a primeira música que eu escrevi na vida, o primeiro clipe que eu dirigi, além de ser o primeiro lançado pela Sapataria. Não tínhamos muitos recursos, só um sonho. E ele só saiu do papel graças às mulheres incríveis que acreditaram conosco e nos ajudaram a tornar esse desafio possível”, conta.”

Sapatas de todo mundo, uni-vos!

Eu particularmente pago um pau para Sapataria! A banda nunca decepciona no quesito qualidade e com seu primeiro vídeo não foi diferente. Sendo uma mulher que cresceu em meio a questionamentos sobre minha orientação sexual, me identifico e aprecio de coração o trampo dessas minas e o significado dessa música.

O vídeo super bem produzido, mas com aquela pegada independente é agradável de assistir. Som acelerado e batida animadíssima, M.S.B. tem o tipo de letra que gruda na cabeça e sem perceber estou aqui cantando que não vou me adaptar, não vou me esconder! Não vou… Com um vídeo de primeira linha no melhor estilo “punk rock skatista” Sapataria segue como um forte exemplo do que a cena tem de melhor para oferecer. Consumir esse vídeo será de lei em todos os rolês lésbicos, e tenho dito!

Com isso, devo dizer que foi um prazer imenso ter tido o privilégio de prestigiar o lançamento do primeiro vídeo clipe dessa grande promessa do punk nacional.

Elenco: 
Marina Garcia (guitarra)
Zu Medeiros (vocalista)
Isa Miranda (baterista)
Dan Cox (baixista)

Equipe técnica:
Marina Garcia – Direção, Fotografia, Roteiro, Edição
Luíza Fazio – Roteiro e produção executiva
Bruna Caratti – Coordenadora de produção
Nathalia Bancalero – Produção 
Marcella Uehara – Produção 
Iolanda Depizzol – Operadora de câmera 
Paula Torres – Maquiagem 
Beatriz Garcia – Produção de objetos 
Marina Ciccone – Fotos still 
Amanda Cox – Segurança 
Caroline Rocha – Segurança  
Soraya Bussiki – Agradecimentos


Evento / Resenha

Dyke Fest #4

Punk rock/hardcore por definição seria um lugar de acolhimento pra todo mundo, você vê isso em todas as letras de música desses gêneros e os fãs são (quase) sempre pessoas que não se encaixam na maioria dos lugares.

Ter um refúgio do mundo é empoderador e por isso esse gênero segue firme e forte, mas há décadas (ou desde sempre?) a cena no mundo todo é hostil, vide o movimento riot grrrl ter sido revolucionário, e há pouco tempo parecia que não tinha mudado muita coisa desde os anos 90. Aliás, vocês já pararam pra pensar que várias riot grrrls migraram pra música eletrônica? O afastamento da cena não foi por acaso.

Felizmente o diálogo aumentou, as pessoas começaram a se movimentar e parece que a cena tá mudando. Em São Paulo especificamente, parece (pelo menos vendo de longe) tar se criando uma cena paralela levada pelas mulheres e LGBTQ+ e o Dyke Fest é a materialização disso.

Ele é um festival queer feminista realizado por lésbicas com o objetivo de fortalecer a cena LGBTQ+ underground. Idealizado por Nati Pinheiro, ele teve sua primeira edição em 2017.

“A minha militância por muito tempo foi feita em espaços mais tradicionais, reuniões de muitas horas, construção de políticas públicas e atos como a Caminhada Lésbica, que organizei durante dez anos, e cada vez mais fui me apaixonando pela possibilidade de passar uma mensagem de resistência e acolhimento por meio do som, poesia e intervenções. Comecei a introduzir tudo que aprendi na produção do encerramento da Caminhada Lésbica de São Paulo, acho que ali nasceu o Dyke Fest de alguma forma”.

“Em 2016, junto com outras mulheres construí o primeiro Maria Bonita Fest que é um festival com foco em hardcore/punk das minas, conheci cada vez mais mulheres e descobri que as minas juntas conseguem fazer qualquer coisa. A relação entre as bandas e produtoras é muito solidária e todas se ajudam muito. Me retirei do Maria Bonita Fest, que segue com outras pessoas, e resolvi fazer um fest direcionado para as mulheres lésbicas, que sempre foi meu espaço de atuação com o hardcore/punk que sempre esteve presente na minha vida. A intenção era o festival “dos meus sonhos” e foi lindo perceber que outras mulheres também sonhavam a mesma coisa. Com o Dyke Fest consigo unir as militantes que mais admiro em rodas de conversa e as bandas que me inspiram”.

O Dyke Fest foi uma das várias iniciativas que surgiu na enorme multiplicação da cena musical underground brasileira nos últimos anos.

“Na ‘cena’ a diferença é absurda, a três anos atrás tive que pesquisar muito e fazer escolhas estratégicas pro festival funcionar, tinha muita banda boa parada e outras que estavam bem no começo. Agora na quarta edição daria pra montar um fest de três dias com várias bandas incríveis”.

E com esse monte de banda nova, uma cena queercore tá se formando. Como no mundo todo, a gente geralmente chama de queercore as bandas que cantam sobre a vivência LGBTQ+ ou que apenas tem membros LGBTQ+, mesmo elas não necessariamente sendo da vertente punk/hardcore e no Dyke Fest isso não é diferente, há bandas de todos os gêneros musicais.

Perguntei pra Nati sobre esse período:
“O Dyke Fest surgiu junto com a minha banda (Bioma), foi uma mudança bem grande na minha vida, fui influenciada por textos anarquistas da América Latina e da Europa, saí da militância lésbica clássica por não concordar com o andamento de algumas pautas e a postura de algumas mulheres e decidi reformular o meu discurso, rompi com dez anos da minha vida. Quando disse que estava fazendo um festival Queer e tinha uma banda Queer e queria começa a falar das nossas vivências e lesbianidade a partir dessa ótica Queer muitas mulheres racharam comigo, mas fiz o dobro de amizades. Depois de um ano outras bandas brasileiras começaram a adotar o termo Queer e queercore, isso foi mágico. Sinto que estamos criando espaços únicos e horizontais, repensando a nossa autogestão, presando a união e a rebeldia a partir da ótica das mulheres, rompendo com o machismo, racismo, classismo e a mercantilização das nossas pautas que sempre foi muito presente no movimento LGBTQI+”.

Festivais de música nunca tem só música e nessa quarta edição o Dyke Fest teve a roda de conversa “Branquitude é Privilégio Branco” mediada por Bah Lutz (da banda Bertha Lutz), exposições das artistas e produtoras independentes Editora Malagueta, Empodera Distra, Underline, Thamú Candylust, Transilvegan, Carol Mendes, Thaís e Elo Torrão, Mulheres Adultas Têm Pelos, Erika Araújo e Mari Crestani, que fez toda a identidade visual dessa edição do Fest. Aquelas colagens me hipnotizaram por um bom tempo.

Houveram também projeções da Concha, que é um trabalho com ilustrações e animações em 3D.
“O que uma lésbica quiser propor será mais que bem vinda”, diz Nati.

Mas falando da música, que é o motivo de vocês tarem lendo até agora, essa edição contou com as seguintes bandas:

Sânias (Sorocaba) era a única banda do lineup que eu não conhecia. Elas são um duo de stoner recém formado e fizeram um show incrível. Sigam elas nas redes que é certeza que vem coisa boa por aí.

Crime Caqui (São Paulo/Sorocaba) é uma banda que mistura dreampop, indie e post-rock. Sua “atmosfera etérea e quase hipnótica”, como se descrevem na bio das redes sociais, casou muito bem com as animações de Concha, projetadas ao fundo do palco durante todo o Fest.
Elas publicaram na internet alguns vídeos ao vivo e pretendem lançar o primeiro EP (ou disco, não sei ao certo) ainda esse ano.

Crust não é muito a minha praia, mas o disco da Rastilho (São Paulo) foi talvez o único que eu sentei em casa e ouvi inteiro mais de uma vez. Agora ao vivo é outra história e o show deles foi lindão. Entre outras coisas, a vocalista Elaine falou bastante sobre brigas dentro da própria militância e eu também acho que a gente devia parar pra pensar um pouco sobre isso.

Miêta (Belo Horizonte) colocou todo mundo pra dançar quase em sincronia. Foi a primeira vez que vi um show delas, foi apaixonante e unanimamente pediram pra ele não acabar. Se você não conhece a banda, tá perdendo tempo, é sério. Elas também tocaram várias músicas novas do próximo disco, que já está sendo gravado.

A última apresentação foi da Tuíra (Rio de Janeiro), que é uma banda com muito a dizer e cheia de referências, é pra você chegar em casa e pesquisar o que você ouviu no show. Como não dá pra não falar de política hoje, a maioria das letras (e o nome da banda) é inspirada por ou homenageia mulheres militantes que se tornaram símbolo de luta. Isso tudo é embalado por uma mistura delicinha de indie, “real” emo e mais alguma coisa.
O primeiro EP da banda, “Calma e Força”, será lançado nesse segundo semestre e após ver o show, eu digo: preparem-se!

Eu fui pelas bandas (tenho ido mais vezes pra São Paulo ver bandas locais do que bandas internacionais, vocês tão de parabéns), mas o Dyke Fest não foi só um show, foi um lugar surpreendentemente acolhedor e acho que o motivo disso pode ser explicado com uma frase da Adriessa, vocalista da Anti-Corpos, no show da edição de Março: “Isso aqui foi lindo. Esse foi o melhor lugar que eu já toquei porque esse aqui é um lugar pra todo mundo”.

“O objetivo é criar um lugar acolhedor pra real fazer amizades e conexões”, disse Nati.
Objetivo alcançado.